Eu estava entre dois vagões do trem bala no Japão — provavelmente indo de Hakone a Kyoto — agachada em um canto segurando meu filho e tentando distrair ele em uma viagem de mais de duas horas. Qualquer pessoa que saísse de um vagão para passar para o outro precisaria virar bem a cabeça para enxergar meu metro e meio ali com uma criança de pouco menos de dois anos que se distraía em silêncio com a porta da sala reservada para usar o telefone e confinar a voz de quem fala. Só estava eu e ele já fazia um bom tempo, já que quase todo mundo aproveitava a viagem para dormir ou trabalhar. Até que, uma hora, a porta se abre, o fiscal do trem sai dela — sem nem desconfiar da nossa presença ali — a porta se fecha atrás dele, ele vira de frente para a porta, que era completamente fechada sem vidros, e reverencia para o vagão que ficou do outro lado daquela porta, sem que ninguém pudesse vê-lo. Ele vira novamente e toca sua rotina para o próximo vagão.






Chegando em Kyoto pegamos mais alguns trens e um ônibus de linha predominantemente usado por locais e sem turistas. Ali, apesar de cheio, o único som que se ouve é do alto-falante do ônibus lembrando regras básicas de etiqueta no transporte público do Japão e o nome da estação que se aproxima — e a cada parada a voz suave do motorista agradecendo uma a uma às pessoas que saem do ônibus, em Kyoto pela porta da frente. Ninguém vai embora desse ônibus sem receber um agradecimento com um leve aceno de cabeça do condutor.
Alguns dias antes, em Kanazawa, participei de uma cerimônia do chá — pois sou completamente fascinada por diversos conceitos japoneses como o ma, o wabi-sabi e, por conta da minha profissão e do histórico das empresas por onde passei, o omotenashi, que é tão sentido nesse ritual. Na cerimônia, a host explicou o significado e a razão por trás de cada pequeno gesto que parece uma coreografia. Tudo ali tem seu lugar: a forma como a host entra e sai do salão sempre com o mesmo pé e nunca pisando nos cantos do tatame — antigamente o nome da família era escrito nesses espaços, portanto evitar pisá-los era sinal de respeito —, o hábito de girar duas vezes a tigela do chá para que a parte mais bonita fique virada para fora em respeito a todos os outros, para que também possam apreciar, o agradecimento com reverência ao mestre do chá quando receber o seu, a reverência ao chá em si, e tantas outras simbologias que podem passar despercebidas aos olhos da maioria mas, por terem uma razão enraizada no respeito para existirem, não deixam de ser cultivadas.
De todas as “regras do que não fazer no Japão” pelas quais fui bombardeada em vídeos nas redes sociais — uma vez que o algoritmo percebeu que eu tinha uma viagem marcada —, a que mais me surpreendeu pelo quão difícil é seguir foi a de não comer andando. Percebi como, em viagem e com criança, às vezes isso se torna quase impossível. Mas ainda assim a gente fazia o esforço de parar e planejar a hora de comer o pãozinho, a fruta ou o chocolate que pegava “para a viagem” — entendendo que isso vinha de um respeito profundo pela comida e pelos sentidos alheios.
O que mais me surpreendeu no Japão se resume a essa palavra: respeito. Pelos sentidos alheios, por aquilo que nos nutre, pelo espaço público. Dos banheiros públicos com espaço para colocar crianças que acompanham os pais, à ausência de perfumes fortes nas pessoas. De carregar o próprio lixo o dia todo a evitar conversar no transporte público. Do respeito pela comida à reverência dos funcionários do aeroporto no momento da decolagem do voo. Um respeito que existe mesmo quando você percebe a pressa e a irritação no outro, e que é praticado mesmo quando não tem ninguém olhando.
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Escrevo esse texto no celular, do próprio cérebro em respeito a vocês que também não aguentam mais ler textos de ia, enquanto meu filho ronca no meu colo faltando pouco menos de cinco horas para chegar em Vancouver — sem conseguir dormir, não só pela falta de mobilidade física na minha posição atual de mãe de um be
bê de quase dois anos que ainda viaja no colo, mas também pela quantidade de inspiração e aprendizado que trago dessas duas semanas que me deixaram fascinada e querendo entender como esse respeito todo nasceu e se mantém com tanta força ao longo de tantos séculos.
Volto com mais em breve.
Mafe
