Sobre insônia, Tsitsi Dangarembga e pesadelos de IA.
Ou: cultivando a relevância com foco no desenvolvimento da competência e da experiência.
Hoje eu acordei às 3 da manhã e não conseguia mais dormir. Talvez tenha sido o matcha que eu tomei depois das duas da tarde numa tentativa falha de ficar acordada até a noite pra colocar o jetlag em dia, talvez tenha sido a preocupação com a tosse chata que não deixava Caetano dormir, ou talvez só tenha sido o fato de que no Japão, onde eu estava até 48h atrás, ainda eram 6 da tarde.
Quando isso acontece eu puxo meu Kindle porque a leitura me intriga na mesma medida que me deixa sonolenta. Li cerca de 25% de Condições Nervosas da Tsitsi Dangarembga — um livro que, pelo menos até os 25%, fala sobre o preço que se paga pra se adaptar a um sistema que não foi feito pra você. Mas uma hora eu dei o braço a torcer e fiz a pior coisa que uma pessoa ansiosa e com insônia pode fazer: peguei o celular.
Os stories que me pararam foram de uma influenciadora local de Vancouver que organiza jantares com experiências incríveis para quem quiser participar. Ela divagava sobre IA e os vários sentimentos conflitantes que tinha em relação ao assunto — enquanto tech enthusiast, ficava fascinada pelas possibilidades e avanços da tecnologia; enquanto mãe que cria filhos sem telas em uma casa cheia delas, ficava apavorada com o futuro; e enquanto “experience designer”, se sentia cada vez mais conectada com a necessidade de juntar pessoas para criar experiências ao vivo.
E eu ali, às 3 da manhã, me dava conta que eu carregava muitos sentimentos conflitantes com isso também, mas como com qualquer avanço tecnológico ou mudança de organização social, era preciso me adaptar pra continuar relevante mas sem me distanciar do que faz sentido pra mim.
Porque a gente vê mais e mais ferramentas de IA que parecem facilmente substituir profissionais medianos: fotógrafos que vão perder clientes para imagens geradas em menos de 5 minutos; designers de interiores que talvez percam as clientes de baixo investimento que só querem uma dica de como melhorar a planta da casa; nutricionistas que já devem estar sentindo o impacto do ChatGPT esmiuçar em segundos as calorias e macros de uma refeição a partir da foto do prato. E por aí vai.
E eu falo isso entendendo o tamanho do impacto que pode causar para muitas pessoas, inclusive amigos próximos — mas com a consciência de ser alguém que já deixou de contratar profissionais por ter uma IA que me deu respostas com investimento zero. Admita, você também já fez isso.
Esse assunto me assusta um pouco quando penso no futuro das profissões — inclusive na área do meu marido, que não só sofre com layoffs quase semanais de big tech mas também trabalha em algo com alto potencial de ser reduzido por IA. Ao mesmo tempo, me impulsiona a pensar o que a gente pode fazer de diferente para garantir relevância.
E pra mim a resposta é: ser sempre acima da média e focar na experiência sempre. Entender o que o seu cliente quer, quem ele é, qual problema você precisa resolver, qual a forma mais eficiente de resolver, qual a emoção que você quer provocar — e como você vai entregar tudo isso.





A fotógrafa que acolhe a cliente que tem vergonha de posar, que guia todo o processo criativo e oferece um ensaio que vai ser lembrado pra sempre? Essa cliente volta pra viver aquilo de novo. A nutricionista que atende no horário, entende a sua relação psicológica com o corpo e com a comida, te educa, e oferece um serviço de alta qualidade? Não vai ser trocada pelo ChatGPT tão facilmente.
E isso não sou só eu falando. Lembra quando todo mundo achava que o varejo físico ia morrer com o crescimento do e-commerce, principalmente no pós-pandemia? Uma pesquisa da McKinsey do ano passado mostrou que mais da metade dos consumidores ainda prefere comprar presencialmente. Outro relatório apontou que 47% dizem que apoiar um negócio local é fator decisivo na hora da compra. O Business of Fashion publicou hoje uma matéria sobre lojistas que ignoram o digital e investem tudo em experiência de cliente e curadoria de produto. O objetivo deles não é estar em todo lugar — é ser indispensável em algum lugar.
Pessoalmente, se por um lado eu acredito que a gente precisa se adaptar e surfar as primeiras ondas pra se manter relevante — sou assinante premium do Claude —, por outro lado eu tendo a ir cada vez mais pro analógico cada vez que o mundo me puxa mais forte pro tecnológico.
Na fotografia, ao invés de investir na Canon mirrorless que aumenta velocidade de foco e qualidade de imagem, eu resolvi adicionar mais uma câmera 35mm ao meu repertório. Quero em breve migrar quase completamente para filme e celebrar a experiência de fotografar com mais presença cada clique, que custam muito mais do que cliques em câmeras digitais, e de esperar os scans — ao invés de só focar no resultado.
No corporativo, aos poucos mudo o meu foco da performance comercial de marcas para o design da experiência delas — que, claro, leva à performance comercial. Mas, mais que isso, humaniza a relação de consumo e cria um valor que tecnologia nenhuma vai substituir: o da experiência humana.
Enquanto consumidora, pra mim nada substitui o presencial — a menos que seja compra de conveniência. Comprar gadgets na Amazon que vendem em lojas que eu tenho zero interesse em visitar? Claro. Agora, me arrumar pra passear por lojas e descobrir marcas novas através de curadorias bem feitas, depois tomar um cafezinho feito por um barista que já me reconhece e se importa com a textura do leite, em um ambiente hipster o suficiente pra me fazer querer sentar e ficar people watching, seguido de uma manicure em um salão que cuida dos cinco sentidos em cada etapa do processo? Isso dificilmente vai se tornar obsoleto.
Obrigada
Mafê.
