O sorriso que reconhece um Crocs de Shrek
São as pessoas que fazem a hospitalidade de luxo, e não o contrário - e o Copacabana Palace sabe disso.
Tão surreal quanto pousar no Santos Dumont na janela certa é entrar em um táxi e pedir para ser levada àquele endereço que todo carioca sabe de cor.
Cheguei no Copa (a intimidade vem com a estadia) exausta. Tinha acordado às 4h30 de uma segunda-feira para um voo ingrato de Curitiba ao Rio com meu filho de menos de dois anos. Na véspera, organizei com todo o cuidado o café da manhã dele para a viagem — e, claro, esqueci que a mamãe também precisa comer.
O avião pousou e ficamos um bom tempo parados, esperando para desembarcar. Caetano fazia amizade com os passageiros e devorava suas bananas e Papapá; eu fazia as contas de quantas horas estava sem comer.
Na recepção do hotel, um recepcionista nos acolheu com uma gentileza tão familiar que fiquei em dúvida se a gente já se conhecia de algum lugar. “Você deve estar exausta. Ainda temos cinco minutos de café da manhã — vou pedir para separarem uma mesa, assim você se alimenta enquanto o quarto fica pronto.”
No restaurante, três sorrisos deram as boas-vindas ao Caetano, chamando ele pelo nome e elogiando o Crocs de Shrek que ficaria famoso nas duas semanas seguintes. Eu, naquela altura, não sabia nem dizer se as hostesses eram hóspedes ou funcionárias — talvez por fome ou cansaço, mas mais provável por elas usarem um uniforme impecável a esse ponto.




O café da manhã no Copa não é refeição, é um evento (literalmente, já que não é incomum ouvir um “parabéns pra você” vindo de uma das mesas). O buffet de comidas frescas, uma fartura de frutas que deixou meu filho deliciosamente confuso depois de tanto tempo comendo só banana e berries no Canadá, os pratos à la carte, a banca de sucos, o refil de mimosa.
Mas é a vista. A piscina, os guarda-sóis listrados, a lateral do prédio de 1923 de um lado, o Chopin do outro. Sentada ali, eu inventava lembranças de um tempo que nunca vivi: os anos 20, quando Copacabana era quase deserta e o Copa, praticamente sozinho na areia, já recebia as figuras mais ilustres que passavam pelo Brasil — as décadas de dramas, romances e festas que renderam livro, novela e fofoca de revista até hoje.
No quarto, cartões escritos à mão pela gerente de guest services, intercalados com portas-retratos de diversos momentos da nossa família. No berço, presentes para o meu filho sobre a roupa de cama da Trousseau, ao lado de uma fronha bordada com o nome dele. Na mesa, uma garrafa de espumante gelada e pão de queijo ainda quente. Fui encontrando os detalhes aos poucos, escondidos pelo quarto de forma intencional, ao longo das horas seguintes.






Mas o que mais me marcou nessas duas semanas foram as pessoas.
Samara, Letícia, Stephanie, Gabriel, Livia, Lia e Anderson são alguns dos nomes que fizeram a gente se sentir em casa a dez mil quilômetros da nossa. A hostess que sabia nossa mesa preferida antes de a gente cruzar a porta do restaurante — e que o Caetano só abraçava depois de comer a melancia dele, nunca antes (ela aprendeu a esperar). Nada ali parece ensaiado ou robótico: são pessoas que trazem a própria personalidade e a própria espontaneidade para a conversa com os hóspedes, e que aos poucos vão fazendo a gente se sentir parte da casa.
“Build the people and they will build your business”, disse Alex Calderwood, co-fundador do Ace Hotel. Pensei nessa frase várias vezes durante a estadia: o Copa é um hotel que há mais de um século nutre pessoas enquanto forma profissionais — e o resultado aparece num sorriso que reconhece pelo nome o dono do Crocs de Shrek.
Na manhã da partida, entramos em outro táxi, dessa vez no sentido contrário. Caetano se despediu da equipe da porta distribuindo hi-fives e fist bumps, mandando beijinho pra quem é de beijinho. E eu fui embora entendendo por que todo mundo que passa pelo Copa fala dele com a intimidade de quem fala de casa.
Obrigada a todas as pessoas que fazem o Copa.
E a você, por ler até aqui.
Mafe.


