Como um vento gelado de inverno em uma cidade de praia que é carregado junto com a maresia pra dentro das frestas de portas e janelas que não fecham direito, eu entro sem ser convidada e me instalo sem ninguém deixar. Eu passo correndo por entre os vãos e é impossível não sentir minha presença quando eu chego.
Há quem tenha aprendido a se livrar de mim depressa pra não deixar que eu gele todo o ambiente e torne a casa completamente inabitável. Essas são as pessoas que sabem que precisam agir rápido. Olhar cada canto, arrastar móveis e fechar todas as frestas encontradas.
Mas eu me alimento mesmo é das pessoas que aprenderam com o tempo a conviver comigo e com o incômodo que eu causo. O vento gelado que não pode ser ignorado mas que é só evitar os cantos da casa por onde ele entra, assim sua presença não fica tão incômoda. E assim as pessoas vão evitando cômodos nos lugares onde elas construíram morada ao longo de tantos anos, só porque no instante presente é sempre mais fácil ignorar a minha presença do que se dar ao trabalho de me tirar de vez. E aos poucos eu vou encontrando cada vez mais frestas pra entrar, e elas cada vez mais cômodos pra evitar. Eu já olhei pra essas pessoas e chamei elas de preguiçosas. Mas o tempo me ensinou a ver que algumas só sentem o incômodo, mas não sabem exatamente de onde ele vem. Tem quem nem saiba o meu nome, e não consiga me chamar por ele, quem dirá me olhar nos olhos e ver que estou ali.
Tem quem me chame de neurótica e improdutiva. Tem quem diga que eu sou um sintoma de como a sociedade foi construída. Tem quem me atribua a outras pessoas na tentativa de se livrar de mim. Afinal, se a culpa é minha eu ponho em quem quiser.
O único consenso sobre mim com que eu concordo é que eu gosto mesmo é das mães. E quem não gosta?
Essa é uma história sobre minha última conquista.
Tem uns dois anos eu conheci uma mãe que se orgulha de ter se antecipado à minha entrada e construído uma redoma em volta da casa dela a tempo do primeiro filho nascer. De vez em quando eu encontrava uma brecha pra entrar, mas ela conseguia me notar rápido. Arregaçava as mangas, limpava a casa, arrumava tudo, e vedava as frestas outra vez. E toda vez que eu dava um jeito de entrar, ela dava outro de me expulsar. “Convivi com a culpa a vida toda, mas agora deu”, falava ela como se não tivesse nenhuma responsabilidade em deixar espaço pra eu me instalar.
Devo admitir, ela fazia um bom trabalho. Tentei entrar em cada tempo livre do filho que ela desejou em silêncio, em cada dois dias de folga que ela imaginou tirar, em toda tarde que passou olhando o relógio e torcendo pro tempo correr mais rápido, até nas horas em que sentia falta de trabalhar só pra se sentir produtiva de outro forma. Mas não teve jeito: nunca durei mais que cinco minutos naquela casa. Diz ela que os tantos anos de terapia pra aprender a se livrar de mim funcionavam.
Até que logo depois dos dois anos do neném, enquanto ela comemorava a névoa dos primeiros anos ter enfim levantado, veio a primeira viagem a trabalho. Trabalho que ela vinha desejando havia dois anos, não tão em silêncio assim, e pra o qual enfim tinha a desculpa perfeita. Dizia que era pelo filho — pra ensinar ele a ser corajoso, pra voltar mais inteira. Pode até ser verdade. Mas talvez fosse só o desejo dela vestido de lição, e é sempre por essa costura mal-feita entre o que ela quer e o que ela diz querer que eu passo.
Mas uma viagem de dez dias vai muito além disso, e então percebi que essa era a minha vez de brilhar. Uma semana antes ela, animada com a ideia de ficar um tempo fora, se preparava para receber a dor da despedida, porque essa ela sabia que viria, mas não desconfiava que eu planejava vir junto e manchar toda essa expectativa. E eu vim com meu melhor discurso e argumentos mais incontestáveis: um neném de dois anos não tem noção do tempo, ele não sabe o que significa o daquiapouco que prefacia “a mamãe tá de volta”. Ele não entende os motivos de uma mãe, que passou dois anos sendo a fonte de segurança dele, simplesmente sumir e aparecer na tela de um celular como se nada tivesse acontecido. Ele não entende esse abandono. Será que ele vai pensar que está sendo punido por alguma coisa? Será que isso vai fazer ele se retrair? Será que ele vai confiar menos nas pessoas? Será, será, será?
Eu sempre me dei muito bem com a dor, já vivemos muita coisa juntas e não vamos parar tão cedo. Mas, diferente de mim, a dor não corrói — e só existe onde existe amor. Por isso não se dá bem com o tempo: quando ele começa a entrar, não é raro a dor sair e deixar só o amor pra trás, que agora atende por saudade. Mas eu não. Eu não preciso de ninguém pra existir, e convivo com o tempo por quanto dele for necessário.
Entramos, eu e a dor, antes mesmo da viagem. Um dia antes pra ser exata. Caetano estava cansado depois de brincar muito à tarde, comer a pizza do papai e fazer bagunça na banheira. Foi sozinho para o quarto, subiu na cama e pediu um “livo” pra mamãe. E foi sentada com ele no colo observando os olhinhos que não conseguiam mais lutar pra ficar abertos com o cabelinho suado grudando na testa, lembrando que naquela semana ele aprendeu a responder “so much” cada vez que ela falava “I love you”, que nós nos instalamos.
E então, sem nem avisar, vieram as lágrimas. E foram muitas.
E elas continuam caindo enquanto, às duas da manhã no horário local, eu conto essa história de dentro do avião de uma viagem que mal começou e ela já não vê a hora de acabar.
Acho que conquistei mais uma mãe.
